Ao ler uma matéria na Scientific American sobre os rastros digitais que deixamos diariamente, resolvi passar um dia com um bloco de anotações a tiracolo (ainda não consigo usar o do celular), registrando todos os meus rastros digitais durante um dia normal de trabalho. Ou, pelo menor, registrando aqueles de que tenho consciência.
Abaixo, as atividades de meu dia, seguidas dos rastros digitais deixados por elas. Leia divirta-se e assuste-se. Todos nós estamos sendo vigiados pelo Grande Irmão.
1. Acordar e ligar o celular: GPS do Iphone.
2. Malhar no condomínio do prédio: câmeras no elevador e na academia.
3. Ir ao trabalho: câmeras do condomínio (elevador e garagem); câmeras da cidade; câmeras do prédio em que fica meu escritório (garage, elevador, lobby do escritório); registro de minha entrada no prédio.
4. Ligar o computador: envio e recebimento de emails.
5. Checar Facebook no Iphone: curtir a foto do bebê lindo de uma grande amiga.
6. Reunião interna à distância: câmeras no lobby e na sala de reunião; teleconferência (supostamente segura).
7. Recebimento de seis ligações no celular pela manhã (duas das quais me deixariam, digamos, constrangida se fosse estampada na capa de um jornal).
8. Entrar no Wat’s App: troca de mensagens com amigo para marcar almoço.
9. Tirar dinheiro para táxi: registro de saída do escritório; câmeras do prédio em que está meu escritório (elevador, lobby, etc. O básico da “segurança”); câmeras do shopping (infinitas, nem pude ousar contar); câmera do caixa eletrônico; registro de meu uso do cartão.
10. Ir almoçar: chamar táxi pelo site da cooperativa; câmeras na rua; pagamento da conta do almoço com cartão.
11. Retorno ao escritório: mais câmeras nas ruas, no elevador e no lobby de meu escritório; registro de minha entrada no sistema do prédio.
12. Mais mensagens pelo What’s App, desta vez com o maridão dengoso.
13. Ainda mais troca de emails (as pessoas são tão indiscretas no mundo virtual... Nem pensam que seu correio eletrônico pode estar sendo observado).
14. Durante a tarde, recebimento de outras quatro ligações (fico desconfortável em receber uma delas).
15. Reunião externa à tarde: registro de minha saída do escritório; câmeras no lobby, elevador, garagem do prédio; câmeras na rua; registro de minha entrada no local em que acontecerá a reunião; mais câmeras por todo lado (espero que não no banheiro, por onde tive que passar).
16. Retorno ao escritório: mais um registro de entrada; as mesmas câmeras que me filmam diversas vezes ao dia, vinte dias ao mês.
17. Olho para o Iphone. Recebi outros emails. Tento não respondê-los. Esta minha lista está comprida demais para meu gosto. Mas sofro da síndrome da pronta resposta, doença moderna criada pelo acesso pelo celular de seus emails pessoais e profissionais. Quem consegue não responder na hora? Desesperadamente impossível.
18. Recebo uma mensagem pelo What’s App. É a minha mãe perguntando como estou e pedindo mais fotos dos meus bebês. São os meus gatinhos lindos. Não. Já chega de rastros digitais por hoje. Uma mulher tem que saber se controlar. Mas aí me lembro da foto linda que tirei da minha bolinha de pelo dormindo dentro da minha bolsa ontem à noite. Que droga! Mandei. Fofura é mais irresistível para mim que chocolate quando estou naqueles dias.
19. Já completamente paranóica (mais que o normal) e imaginando a polícia federal invadindo minha casa no meio da noite, Fecho tudo e volto ara casa. Mais uma lista: registro de minha saída; câmeras no lobby do escritório, no elevador e garagem do prédio; câmeras nas ruas; câmeras do meu condomínio (garagem e elevador). Chego em casa, desligo o celular (deveria tirar também a bateria?), e curto minha privacidade com meus três amores. Quer dizer, isso é o que acho...
20. Droga. No dia seguinte lembro-me de outro rastro que deixei. Comprei um filme no NOW. Privacidade é realmente o maior luxo do século XXI.
Citação: Scientific American Brasil. Novembro de 2013. Nº 138.
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